Santo Agostinho


Palavra
Institucional

Imagem

Pais que favorecem o voo

postado em:

15 de fevereiro de 2019

Estamos diante de dois entendimentos em relação à educação dos filhos na sua interface com a escola ou educação formal. A primeira, que denomino filhote no ninho, cria condições para a permanência do filho e, consequentemente, sua tutela, até a fase adulta junto aos pais. Na educação básica, o ensino seria domiciliar, ou seja, realizado pelos próprios pais, que podem se ocupar com o filho “por duas, três horas por dia aplicando conteúdo”, segundo sugestão da ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos.


É preciso lembrar que, em setembro de 2018, esse tipo de ensino, mais conhecido como homeschooling, não foi reconhecido pelo Supremo Tribunal Federal (STF). Agora, a proposta do governo federal é encaminhar uma medida provisória ao Congresso Nacional, buscando garantir apoio legal às famílias que quiserem optar por esta prática.


Sabemos das precariedades do sistema educacional brasileiro, e é por isso, nesse momento em que há tanto para se fazer pela educação básica pública, que estranhamos seja essa uma das metas para os primeiros cem dias! Com certeza, homeschooling não é uma opção para os brasileiros, mas, sim, para a parcela ínfima daqueles que podem se dar ao luxo de ter, normalmente, as mães disponíveis para fazer papel de professora. Em vez de consertar o barco que pode afundar, entregamos boias salva-vidas somente para alguns.


Coerente com essa opção é a pauta de alteração da regra do Sisu, para que não seja possível ao estudante candidatar-se a uma vaga em universidades fora do seu domicílio. Dessa forma, o filhote permaneceria em casa, inclusive no ensino superior.


A segunda possibilidade, que denomino “pais que favorecem o voo”, compreende o ambiente familiar como um espaço qualificado em que a experiência educativa e formativa acontece. Reconhece a família como a primeira mediadora entre a nova criança que nasce e a cultura. Sem dúvida, a principal matriz de identidade de uma pessoa; responsável pela transmissão de valores e crenças, causando grande influência no comportamento, na forma de ver o mundo e de estabelecer relações sociais.


O núcleo familiar deve prover a criança de um contexto continuado de afeto, segurança e encorajamento para que ela tenha um desenvolvimento emocionalmente saudável e alcance autonomia funcional para conseguir voar. Se família for tudo isso, então a escola só vai contribuir para o seu desenvolvimento e crescimento. Lá, não se aprendem apenas “conteúdos”, mas exercita-se, junto com outros filhotes de sua idade, a funcionalidade das asas com pequenos voos de autonomia. Às vezes, volta para a casa com a asinha quebrada. Faz parte! Dentro de suas possibilidades, é cobrado, confrontado, interpelado e levado a assumir a responsabilidade por decisões, além de fortalecer os seus argumentos em relação àquilo que pensa. Ainda mais —pelo espaço plural que é— irá aprender a reconhecer e conviver sem bicar, morder ou matar outros filhotes diferentes dele.


Pais que favorecem o voo sabem que não possuem atributos divinos da onisciência, onipotência e onipresença. Por isso mesmo, não andam ansiosos quanto àquilo que os filhos estão vendo, ouvindo ou fazendo. Eles, simplesmente, estão lá no campo de visão dos filhos, presentes como grandes referências éticas e morais: tudo que o filhote, agora fortalecido, precisa para, na hora certa, voar.

Aleluia Heringer Lisboa Teixeira

Doutora em educação e diretora do Colégio Santo Agostinho - Unidade Contagem

Últimas publicações