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Que o novo sejamos nós

postado em:

29 de janeiro de 2018

Texto da Diretora Aleluia Heringer, publicado no Caderno Opinião do Jornal Estado de Minas em 28 de janeiro de 2018.

Associamos tanto o final do ano quanto o início do ano letivo com reorganização. Formal ou informalmente, revemos propósitos, lembramo-nos daquilo que um dia foi sonho, arrumamos armários, separamos objetos que não iremos mais utilizar. Para quem tem filhos em idade escolar, compra-se tudo de novo. Para o estudante, o cheiro do novo tem força e é o mesmo que dizer "para você, uma nova oportunidade, siga em frente!"

Esse ritual anual nos coloca diante da estrutura material que mobilizamos para viver. Esvaziamos espaços para, na sequência, ocupá-los novamente. Nossos ancestrais, os caçadores-coletores, não tinham essa demanda, mesmo porque dispunham de pouquíssimos artefatos. Yuval Noah Harari, no seu livro Uma breve história da humanidade, analisa que a maior parte dos aspectos de suas vidas mental, religiosa e emotiva era conduzida sem a ajuda de objetos. O mesmo poderíamos dizer hoje de um andarilho que dorme na rua. Seja em uma savana ou em um grande centro urbano, para esses, nada de cabides, caixas de sapatos, carro, freezer, liquidificador, ferro de passar roupa etc.

O contrário acontece conosco. Yuval diz que dificilmente há uma atividade, uma crença ou mesmo uma emoção que não seja mediada por objetos concebidos por nós. De fato, eles falam de nós, vestem, revestem e nos distinguem dos demais. Demonstramos pertencer a um grupo social por meio dos objetos. Em alguns casos, ele ou eles são tão onipresentes que se confundem com a própria pessoa. Um carro, um tênis ou uma mochila, pelo simples fato de ser de uma marca tal, podem dar a quem o possui um sentimento de prazer e segurança.

Os muitos objetos facilitam nossas vidas em muitas áreas; outros são inúteis em termos de funcionalidade, mas são indispensáveis e nos lembram de que somos seres culturais. Lembro-me das flores, dos livros e dos perfumes. Outro ponto a considerar é o desprezo por um objeto. Adquirimos com ímpeto e nos desfazemos daquilo que ainda tem valor de uso, sem nenhuma consideração, pelo simples prazer da troca. Desfazer, dizer que está velho e fora de moda são meios que utilizamos para abrir espaço para a renovação do ciclo: compro, uso, descarto. Processo linear e insustentável. Como nos amontoamos com objetos inúteis, eles logo nos cansam. O lixo é uma marca das sociedades humanas. Por ele é possível contar nossa história. Produzimos muito e nem nos ocupamos em conhecer sobre a destinação. Nesse lixo está o excesso que adquirimos nas liquidações e no "pague 2 e leve 4!", sendo que precisávamos apenas de um. Temos muitas coisas das quais não necessitamos. São os objetos que nos complicam, nos deixam mais lentos. Basta imaginar o trabalho que temos quando se faz necessário mudar de casa.

Em todos os ambientes públicos, é comum haver a "seção de perdidos". Em escolas, sempre há uma salinha de depósito. Crianças e adolescentes esquecem casacos, toucas, merendeiras, óculos, lápis. Perdem e nunca mais os procuram. Esquecem-se de que tinham, não sentem falta. O que espanta e merece nossa reflexão não é o esquecer, mas sim o não sentir necessidade de recuperar. O desapego total a algo que custou dinheiro, implicou uso de matéria-prima e tecnologia. Saber que no final todos os objetos irão para doação e serão úteis nas mãos de outros mais necessitados não resolve o problema de fundo.

Aproveitando esta onda de começar tudo outra vez, poderíamos incluir a disposição para, ao longo do ano, diminuir o consumo e o descarte. Aumentar o reparo, a costura, o conserto, o aproveitamento, a doação, a reciclagem, aproveitando mais cada item que um dia trouxemos para o nosso território existencial. Talvez, marcar nossa presença e nos fazer conhecer menos pelos objetos que possuímos e portamos, e sim pelo que fazemos, nos ocupamos e construímos nesse rasgo de tempo chamado "nossa vida". Que o novo sejamos nós!

 

Aleluia Heringer Lisboa Teixeira

Diretora da Unidade

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