Santo Agostinho


Palavra
Institucional

A ética da compreensão

postado em:

16 de novembro de 2017

Texto da Diretora Aleluia Heringer, publicado no Caderno Opinião do Jornal Estado de Minas em 16 de novembro de 2017.

Há um sentimento geral de que mudaram as estações e que, sim, muita coisa mudou. O efeito instantâneo e ruidoso das redes sociais, onde todos têm opinião formada sobre tudo, está amplificado. As pessoas se precipitam, apontam erros, excessos e pecados (dos outros, claro!) e, quase sempre, imediatamente, excluem-se.

De tudo isso, o mais inusitado é o medo que se tem, não das armas, mas das ideias. Ou as nossas são fracas demais ou, as do outro, muito poderosas. Devem ser aniquiladas. Tudo ameaça: o discurso, o livro, o filme, a internet, a música, a conversa, a escola ou os amigos. Como impedi-las de circular? Seria o mesmo que impedir o vento de ventar. Vimos tentativas, por vezes abusivas, de silenciar o outro que entre em nosso espaço aéreo. A “minha” visão de mundo é a única com direito à existência e, se possível, candidata a ser universal. Já não basta ter a liberdade de viver, de expressar, de crença, de ir e vir, de voto, entre outros. É preciso impor às instituições e às pessoas em geral, “minha” especial e iluminada forma de expressão política, religiosa, cultural e pessoal. O desejo da volta literal da Inquisição como forma de queimar as pessoas em praça pública é, em última instância, nossa arrogante vontade de ser deus e instalar, já, o tribunal do juízo final. Nós, reles mortais, estamos ávidos pela função de juiz do outro.

Edgar Morin, no seu livro Ética – O método 6, discorre sobre três níveis de compreensão. O primeiro nível é a compreensão objetiva é o cump-prehendere, tomar em conjunto, comporta a explicação (ex-plicare, sair do implícito, desdobrar). Aqui temos a reunião e articulação dos dados e informações relativos a uma pessoa, um comportamento, uma situação. O segundo é a subjetiva compreensão de como vive o outro, seus sentimentos, motivações interiores, sofrimentos e desgraças, que despertam em nós a percepção da nossa comunidade humana. O terceiro nível é a compreensão complexa que engloba explicação, compreensão objetiva e subjetiva. Ela não reduz o outro a somente um dos seus traços, dos seus atos, mas tende a tomar em conjunto as diversas determinações ou diversos aspectos da sua pessoa. Tende a inserir nos seus contextos e, nesse sentido, simultaneamente, as fontes culturais, sociais, condições históricas e as fontes psíquicas e individuais dos atos e das ideias de um outro.

Para ilustrar como alcançamos a compreensão complexa, Morin fornece o exemplo do cinema e da literatura. Nestas duas modalidades de arte, somos projetados psiquicamente nos personagens e despertados para a compreensão do outro. As pessoas são descritas no contexto de suas vidas, englobando a sua subjetividade e o seu sentimento. Somos capazes de “compreender e amar o vagabundo Carlito, que desprezamos ao encontrar na rua”.

O medo que nos leva a enxergar monstros rivais na face dos outros, é a incompreensão que este outro “obedece a um código diferente do nosso”. Muitos dizem que vivemos “tempos sombrios” e de retrocessos. Talvez nos falte a ética da compreensão, que não significa justificar, querer ser politicamente correto, fraqueza ou abdicação de nossas ideias. Pode-se compreender o adversário e combatê-lo ao mesmo tempo, afirma Morin, que aposta na eficiência da estratégia. No conflito de ideias nos é exigido argumentar, refutar. Isto nos mantém vivos, operantes. As ideias que mais nos desafiam e interpelam, são aquelas com potencial de nos fazer crescer. Eliminá-las, pelo simples desprezo, empobrece a vida ao mesmo tempo que sinaliza para nossa própria fraqueza. Deve ser por isso que o mundo está ficando tão chato!

 

 

 

Aleluia Heringer Lisboa Teixeira

Diretora